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29 de jan. de 2017

The virtue of selfishness

"I'm bad, and that's good. I will never be good, and that's not bad. There's no one I'd rather be than me", Detona Ralph.

As vezes a gente para pra pensar sobre algumas coisas de nossas próprias vidas e nos perguntamos: "será que somos bons com as outras pessoas?" ou "será que somos confiáveis?" e isso tede a ficar martelando a cada vez que você se encontra em uma situação em que você precisa tomar uma decisão difícil.

As vezes só o que temos para poder decidir algo é nossa própria consciência, e nesse ponto se não estamos bem conosco, isso só tende a obscurecer nossa capacidade de julgamento.

Veja bem que falei de consciência, e por consciência digo saber quem nós somos e o que queremos dessa experiência de vida. E isso quer dizer decepcionar pessoas pelo caminho, pois nem todos enxergamos a vida pela mesma ótica e nem esperamos as mesmas coisas dessa experiência.

Por isso, as vezes as pessoas podem nos enxergar como pessoas más, as vezes até nós podemos nos ver assim, mas se isso é uma coisa que nós somos, é essa coisa realmente ruim?

Penso sempre que o mais importante nessa vida é ter constância na forma com que vivo a experiência mundana, e tento manter essa constância na forma com que minhas ações são projetadas.

Dessa forma, não tenho nenhum medo de admitir que não sou uma pessoa boa, mas também não me considero uma pessoa má. Na verdade a única característica que ultimamente coloco como parte da minha personalidade é meu senso de justiça e lealdade. E é através desse senso para com meus próprios objetivos de vida, com as coisas que acredito e que me guiam, que canalizo minhas energias para ajudar alguém ou pra retribuir uma ingratidão, caso veja como necessário ou pertinente.

Eu tenho várias características negativas, assim como também tenho várias características positivas, e conheço todas, pois tive todos esses anos de introspecção e meditação comigo mesmo para conhecer cada pedacinho de cada aspecto da minha personalidade mais aparente, e vários de características mais latentes, mais escondidos atrás de tantas muralhas criadas por mim mesmo para me proteger do mundo, das pessoas, da vida. Algumas dessas características uso rotineiramente e com bastante desenvoltura, outras aparecem ocasionalmente em determinadas situações (stress, felicidade), outras ainda raramente aparecem mas tendem a ser reflexo das minhas defesas internas. E também existem aquelas características que nunca foram postas à prova, mas eu sei que existem, pois eu já criei cenários mentais em que essas características foram, de alguma forma, testadas.

Isso pode parecer errático para as outras pessoas, mas para mim não é. Eu sempre sei o porquê de estar fazendo as coisas, dentro do que conheço à respeito do que estou fazendo. À partir do momento que passei a não mais julgar se algo que estou fazendo foi bom ou ruim para alguém e sim julgar se aquilo merece ser feito ou não segundo o que acredito, eu passei a fazê-lo com mais consistência, com menos dúvidas e, principalmente, com mais fé em mim mesmo.

Saber que fui consistente nessa vida é muito mais importante do que ouvir que fiz o bem para outras pessoas, pois o que os outros pensam sobre mim reflete quem eles são não quem sou eu.

15 de fev. de 2016

Eagerness

Uma coisa que tenho percebido que têm acontecido com o passar dos anos é a minha diminuição por desejar algo de forma compulsiva.

Antigamente, eu não conseguia fazer outra coisa senão ficar olhando todos os reviews de celulares, ou de jogos, ou de qualquer coisa que eu julgasse extremamente importante para minha satisfação pessoal naquele momento.

Hoje, eu olho para coisas que eu desejo e, por um momento, sinto um forte desejo de possuir essas coisas mas, depois de pouco tempo esse desejo passa, sem deixar nenhum sentimento de frustração, como ocorria antigamente.

Não que o desejo tenha desaparecido, mas atualmente ele não parece ser tão importante na minha vida e, como qualquer mecanismo mental, é passível de adaptação, eu acho.

Penso que, ante a efemeridade da vida humana, essas coisas passam a não fazer tanto sentido, no que tange às experiências que vamos tendo durante nossas vidas. Afinal, a única coisa que podemos dizer que é nossa de verdade são as experiências, e nem sempre esses desejos se compõem em experiências que iremos nos lembrar.

Dado isso, acho que é parte do processo de desconexão do mundo, esse processo de não ver mais graça nas coisas que não estão dentro da minha mente. Afinal, isso é a única coisa que posso falar que é meu, "et veritas" e, independente do desfecho que a vida nos dá, representa quem somos de verdade: um mundo imenso de experiências se inter-relacionando.

1 de fev. de 2016

Superpowerness

Vamos filosofar sobre o filme Poder sem Limites.

Não sei vocês, mas eu faço isso para todo filme que eu assisto, pois todo filme têm uma história para me contar (na verdade nem todo filme, alguns são meh o suficiente pra ser só mindless action).

O filme Poder sem Limites mexe comigo, pois ele relata exatamente uma das sensações que eu teria se de repente eu desenvolvesse um poder como psicocinese (o melhor poder).

Várias vezes eu me peguei imaginando como seria, como aquilo me afetaria, como a sociedade reagiria, e no final a única coisa que realmente me preocupa é em como minha personalidade se adaptaria em torno dessa nova habilidade.

Será que eu começaria a achar que sou um deus? Será que minhas noções de moral se alterariam? Eu sinceramente não sei. Eu só posso imaginar que eu ia me divertir muito com essa habilidade.

Alguns diriam que eu poderia salvar vidas com ela. Eu argumento que sim, se esse poder viesse com um propósito. De fato, a propensão a ajudar onde fosse preciso seria muito grande, mas não viveria só por essa ótica, afinal quem decidiria sobre isso seria eu, pois no final das contas o poder é meu, não é?

Eu sou uma pessoa que pensa muito mais em mim que nos outros, mas não deixo de pensar nos outros também, mas o fato é que eu vou pensar em mim primeiro e, a não ser que envolva uma decisão moral, eu vou sempre tomar uma decisão em meu favor próprio.

Assim, o fato de ter ou não superpoder é na verdade o fato de o quão eu me doaria para o mundo. Eu tenho minhas medidas de doação, e só vou além dessas medidas quando a pessoa conquista esse mérito comigo. O resto, é só uma carinha bonitinha lintamente esculpida através de anos de experiências de dissimulação.

Ainda sim, seria muito bom poder voar com um poder como esse. Eu ficaria a vida inteira voando e levantando as coisas.

15 de jan. de 2016

Dreamspaceless

As vezes eu paro e fico olhando o mundo físico e fico comparando com meu mundo interior. Minha vontade de estar dentro dele é sempre muito grande, como se eu tivesse nascido para aquele lugar, não para este daqui. No meu mundo interior, carinhosamente chamado de Entalis, tudo é muito parecido, mas ao mesmo tempo muito diferente. Algumas coisas que acontecem lá não acontecem aqui, e algumas coisas que acontecem aqui não aparecem por lá. No entanto, fora esses detalhes, a quantidade de detalhes é praticamente o mesmo.

Eu só preciso concentrar um pouco mais do que o normal, de olhos fechados, e de repente eu estou do lado de um riacho de águas frias, com árvores de folhas pequenas e sementes miúdas, com montanhas ao longe e uma parca névoa alcançando o horizonte. Indo um pouco mais longe, chego em uma cidade com ruas, carros, pessoas, prédios e lá as pessoas são como as daqui, sempre apressadas em sua própria vida. A diferença principal entre este mundo e aquele é que naquele eu não tenho as preocupações deste, como onde morar, o que fazer pra sobreviver, trabalho, medos, etc. Lá eu simplesmente vivo.

E a maior parte do tempo em que eu estou melancólico, eu vou para esse mundo, e lá me sinto em paz. Não existe nenhum lugar no mundo que me deixe mais em paz de espírito que em um morro verdejante com uma árvore frondosa e folhas aconchegantes no topo, que existe no meu mundo interior. É como se pudesse olhar para o mundo inteiro e sentir uma sensação de plenitude e completamento que não existe aqui.

A cada dia que vivo nessa realidade, eu sinto que vou me tornando cada vez mais insípido às sensações que recebo daqui, como se nada mais me surpreendesse ou me fizesse sentir as fortes emoções que eu gosto de sentir e de fazer fluir em meu interior. E é engraçado dizer isso, mas das coisas que mais tenho sentido prazer em fazer nessa realidade, a maior de todas é dormir. Pois é dormindo que na maioria das vezes eu cosigo passar horas, dias e até meses dentro do meu mundo, pra então acordar de manhã e perceber que preciso trabalhar, que preciso sobreviver, que preciso fazer um monte de coisas, e que praticamente nada disso têm sequer significado pra mim, exceto pelo fato de que preciso fazer essas coisas para continuar vivendo nesse mundo.

Não me importo que me achem doido ou fora de mim. Esse é quem eu sou de verdade, e poucas pessoas vão um dia conseguir enxergar essa pessoa que está escrevendo isso por aqui. E as que enxergam isso (ou compartilham da mesma sensação) me entendem quando digo que eu não sou desse mundo.

Eu não sou desse mundo. Eu nasci nele, mas de fato o meu mundo, aquele que queria estar nesse momento, existe só dentro da minha mente, e se eu estiver aéreo as vezes, pode ter certeza que estarei tomando um sorvete em algum lugar na minha mente ou sentado debaixo de uma árvore, me sentindo a pessoa mais feliz do mundo por estar ali.

Aum shree iknari hum.

12 de dez. de 2015

A Lei do Eu, por Eduardo Rolim

Um é tudo

Tudo é um

Não existe encima e embaixo, só existe o eu, e o que fora dele está.

Essa é a lei, tudo deriva do um e volta para o um.

Eu é deus, deus é um. Deus e eu partilham da mesma essência, tendo nomes diferentes para o entendimento do homem. Deus é o estado transitivo do homem, entre o eu e o um. Homem é deus, sábio e louco.

Eu é um, para o homem que alcançou a iluminação. Cabe ao homem investigador e observador entender que o eu e o um são a mesma entidade.

O sábio e o louco sabem a verdade. Um pelo eu, outro pelo um.

Universo é matéria. As forças primordiais definem a lei do físico, é do físico que emana o eu, contido no um, contido no eu.

O oculto é mente, surge do eu e se projeta como o um que existe dentro do eu. O homem que é deus de seu próprio um.

O que escapa ao eu real é. Real é aquilo que complementa o um. Pois ao homem não cabe entender que real não é aquilo que seus sentidos sentem. Pois o real não é realidade, realidade não existe sem um ponto de vista.

Micro e macro são percepções. O macro está contido no micro. O micro se torna macro, à percepção do eu.

Se eu sou um, quem são os outros? A realidade nos dá outros eus, cada um sendo parte do um, mas cada um é eu, cada eu um universo em si mesmo. Toda matéria interage e na interação não existem fortalezas, e o eu se divide em varias não-localidades chamadas intelectos. Cada fagulha, cada observador atrás do olho atento é entidade única. Mas o eu atento perguntará se ele não é eu, é aquele eu parte do real? Como a casa de espelhos, a resposta escapa ao entendimento do homem mas o sábio já encontrou a resposta e o louco a verbaliza.

O um é intangível fisicamente pelo eu. Não é possível saber os limites da casa na qual se está dentro. É possível, no entanto, mensurar a sala em que se vive, pois suas paredes são realidade aos sentidos.

A ciência é, para o bom observador, a mensuração da sala onde se vive. É adjeto e ferramenta do eu. Um sem o outro é função sem forma e forma sem função. O louco só se torna o sábio quando entende essa transitividade.

O um é atemporal. É o que aconteceu, o que acontecerá e o que nunca aconteceu ou acontecerá. O tempo é a expressão do real, permite o homem absorver é entender o um, um passo de cada vez.

O tempo é o gestor dos eventos e o orquestral da natureza. Tudo se dá através deste, até o entendimento supremo. O homem que entende o tempo finalmente se encontra em condições de ver a casa como ela é. Mas ver a casa o cega para as salas e ver a sala o cega para a casa. Não há informação absoluta no eu, só no um e para tal é preciso que o eu seja novamente o um.

A evolução é conhecimento. O eu ignorante se tornando o um onisciente. O homem é consciente da pedra, mesmo que a pedra não seja consciente de si. São diferentes níveis do eu, e só o eu pode dizer se é consciente de si mesmo, pois mesmo o homem é pedra ante o um que é o eu.

Essas são as palavras da lei que definem o eu.

Um é tudo e tudo é eu.
Eu não é tudo mas é um em si mesmo.

22 de out. de 2015

Changeless

Esse negócio de mudar de cidade não é fácil. Estou querendo voltar a escrever aqui no blog sobre esses sentimentos, mas eu me sinto meio desconectado dos mesmos, pra evitar o impacto da ansiedade nesse processo, mas não têm tido muito sucesso. Ontem eu fui parar na enfermaria e hoje tive uma crise depressiva, que se não fosse meu amigo Talles e meu marido Tiw Brás, eu não teria melhorado.

O que percebi é que preciso voltar a me conectar comigo mesmo, lembrar as coisas que eu sou bom em fazer e tomar cuidado com as coisas que eu não sou bom. Essa mudança de cidade é, acima de tudo, uma mudança na forma como eu venho lidando com o mundo. Quero acreditar que vou deixar de ser essa pessoa reativa e começar a ser mais produtiva, mesmo que isso não signifique nada pra mim, afinal não tenho essas baboseiras de precisar deixar um sinal meu no mundo.

O que eu realmente quero (Mário Alberto) é conhecer o mundo, é descobrir o significado de todas as coisas e chegar no final da minha vida e olhar pra tudo o que eu aprendi, e desaparecer feliz sabendo que eu fiz o possível para entender cada partícula existente.

26 de ago. de 2015

Death

Existe um post nesse blog que todo mês eu adio ele em mais um mês. Esse post é um post onde eu deixo meus pensamentos para caso eu morra. Vocês podem achar mórbido o quanto quiserem, mas eu faço isso e sou feliz por não ter medo da minha própria finitude.

Em resumo, esse post (que vocês só conhecerão o conteúdo no momento certo hehe) trás vários pensamentos meus sobre muitas coisas nessa vida. Esse post é constantemente atualizado com novos conteúdos e com alterações de coisas que antes eu acreditava e agora não mais.

Por que estou falando isso? Porque sim.

27 de jul. de 2015

Humanizer

Não acredito em deuses, acredito em pessoas, não importa de que lado estejam.

Κύριε ελέησον

Hoje ouvi uma música que representa muito do que estou sentindo hoje, sobre o sonho que tive de manhã, sobre as coisas que eu acredito e sobre o meu lugar no mundo ...

"E se Deus fosse um de nós?
Apenas um desajeitado como um de nós
Apenas um estranho no ônibus
Tentando ir pra casa" Joan Osborne - One of Us

E apesar de não acreditar muito na figura de um deus, eu acredito que todos estamos em uma caminhada, e alguns estão mais à frente que a gente e outros mas atrás, mas no final todos estão andando para algum lugar melhor que hoje.

As vezes aquele que é Deus, ou Jesus, ou Khrishna ou Oxalá, para os outros, são pessoas como eu, como vocês, que dentre todas as coisas, só busca seu lugar no mundo...

24 de mai. de 2015

Mindless vs Godfull

Desde que deixei de seguir uma doutrina que no fundo em não acreditava (catolicismo), eu passei a ser um estudioso das várias culturas religiosas através do globo, as vezes me dedicando a algumas em busca de uma conexão ou de alguma resposta a questões que sempre fiz desde o momento que construí a minha primeira teoria da mente.

O engraçado foi que nas culturas onde houveram conexões místicas (a se falar, Hinduísmo e Candomblé) as minhas experiências com os seres divinos foram especialmente intimistas e pessoais. Eles tinham coisas a me ensinar, e não exigiam nada em troca, nada mesmo.

Eu gosto de acreditar que deva existir o lado espiritual, mas como minhas experiências místicas (com ganesha e omulu) me disseram, eu estou nesse mundo para questionar, é essa a minha missão, e dentre os questionamentos, o mais importante de todos é o da existência de algo após a morte física do corpo.

Eu queria mesmo acreditar que exista algo, mas eu acredito de verdade que o fim é o fim e é o fim. É até engraçado dizer que alguém que não acredita de verdade na existência de seres místicos e em mundo espiritual se colocasse a estar conversando com entidades divinas. O ponto é que: eu acredite que eles existam ou não, eu estou direcionando minhas forças para aquilo que meu corpo físico pode sentir, analisar, dizer com certeza que está ali.

É como sentar com omulu e ter uma conversa sobre por que eu acredito que o fim da vida é o fim da minha pessoa, pedir desculpas por não acreditar que ele é real de verdade e ele sorrir para mim e me dizer: "Nada me faz mais feliz que ver um filho aprendendo a pensar por si próprio e enfrentar, sem medo, as questões que as pessoas comuns tem medo de fazer."

Eu tenho medo, na verdade, mas se eu não questionar até as fundações da realidade e da minha própria existência, por que então teria eu vindo a esse mundo com essa habilidade? Se os deuses existem, não seria crueldade tremenda dar um brinquedo qual eu não pudesse brincar?

6 de jul. de 2014

Disbeliefs (ou como me tornei agnóstico)

Post do Passado Distante: 6 de julho de 2011.

Em algum ponto da vida você percebe que "tudo o que lhe foi contado na vida é uma mentira, e seu lugar no mundo é errado". E o que me fez chegar a essa conclusão?

Para mim, aconteceu quando eu tinha uns 12 anos. E não foi algo fácil desde então.

Eu cresci em uma familia conservadora da Igreja Católica Apostólica Romana, em uma cidade do interior de Goiás. Me foi ensinado desde cedo a ter medo de ateístas, de pessoas espiritistas e de qualquer coisa não relacionada à religião. Eu deduzi que elas eram pessoas infelizes cruéis com desprezo pela moralidade e ódio pela vida.

Essas pessoas eram como as vilãs das histórias que eu gostava na época. Eu achava meio difícil acreditar que esse tipo de pessoa existia. Me ensinaram que assassinos como Stalin eram ateus e que as pessoas boas um dia se tornavam santas, heróis da igreja.

As coisas começaram a mudar quando, um dia, perguntei se a alma da minha cadela (que tinha morrido) iria para o céu e me responderam que animais não possuíam alma. Eu não acreditava nisso. Me disseram, ainda, que eles estavam aqui só para satisfação Divina.

Durante um tempo, esse pensamento ficou dormente na minha cabeça, mas ele já havia me feito pensar muito sobre o que era certo e errado. Eu ficava paranóico por ter pensamentos "errados" pois Deus via tudo. Isso me levou a desenvolver um comportamento onde minha mente ocasionalmente disparava uma miríade de pensamentos depravados, quanto mais eu tentasse controlar esses pensamentos. Eu ficava imaginando Deus olhando pra mim em desaprovação. Imaginava que minhas orações não eram atendidas porque eu tinha tais pensamentos. Tive pesadelos quase constantes durante vários anos. Eu não contava a ninguém sobre isso, com medo de também ser desaprovado pela família.

Perdido, sem chão, desesperado, eu me voltei para a única coisa que sempre tinha sido estável na minha vida: minha mente. Pela primeira vez na vida, eu comecei a questionar o que me havia sido ensinado. Levei um tempo para dar mais espaço para a minha mente, descobrindo que minha razão e meu intelecto eram tudo o que eu precisava para entender o mundo, para entender o que era verdade e o que era mito.

Pela primeira vez na vida, li a bíblia do começo ao fim. E durante a leitura, fui vendo o que não via antes: várias partes contraditórias entre si. Não era um livro sagrado, mas várias histórias de várias épocas e vários grupos, nem mesmo necessariamente interligados.

Minha razão foi se fortalecendo aos poucos e eu comecei a questionar a pedra fundamental do meu sistema de crenças: a fé. Por que a fé é uma virtude? Por que Deus se importava tanto com o fato de eu acreditar nele? Por que ele não gostava da razão, se tinha criado a gente com cérebros capazes de usá-la?

No mesmo período, eu estava no rito cristão chamado Crisma. É um momento onde você reforça os votos que você fez na Primeira Comunhão. Na época da primeira comunhão eu era alguém que acreditava em um Deus bonito, bondoso e que "cuidava" dos seus filhos. Na época que eu crismei (mais por seguir protocolo familiar) eu me questionava sobre "Quem era esse Deus vingativo e que joga as pessoas umas contra as outras e toma partido de forma arbitrária?"

O que restou de mim como uma pessoa crente em um Deus estava atordoado com os pensamentos que eu vinha tendo. As histórias que me contavam sobre ateístas, "pessoas que secretamente suspeitavam da existência de Deus mas que negavam sua existência com objetivos nefastos", começaram a parecer nada mais nada menos do que uma arrogância besta por parte das pessoas crentes. Na verdade, tudo o que os católicos (e crentes em geral) brandavam como características negativas dos ateístas eram, na verdade projeções de seus próprios medos e pensamentos negativos. Comecei a perceber que os meus problemas de infância eram os mesmos dos deles, mas eles exteriorizavam isso em pessoas totalmente inocentes, e isso de alguma forma os trazia paz de espírito.

Com o tempo, passei a analisar a própria existência do Deus cristão através da razão, para desespero das migalhas do meu sistema de crenças anterior. Como podia esperar que Deus fosse justo quando ele condenava alguém ao sofrimento eterno só porque não acreditava nele? Especialmente quando a razão era a melhor forma de se discernir entre a verdade e a não-verdade?

Pouco tempo depois, ouvi falar da palavra "agnóstico" e comecei a me perguntar sobre o que tudo isso significava. Minha depressão (que poucas pessoas tiveram a chance de presenciar pois era escondida em várias camadas de personalidades artificiais que eu desenvolvia na época, para tratar de outros assuntos tão complexos quanto) era bastante entrelaçada com a minha confusão religiosa. Até então, eu só tinha duas opções: Ou acreditava em Deus ou não acreditava nele. Ponto final. Fim da linha.

Mas, e se eu pudesse acreditar em algo, mas ao mesmo tempo pudesse manter minha razão e intelecto em busca das respostas ao invés de acreditar cegamente em algo? Foi aí que entendi o significado da palavra recém descoberta. De repente o mundo tinha se tornado extremamente fascinante para que eu ficasse deprimido. Deus não era só um. Deus nem mesmo era mais uma Entidade Divina, mas a maravilhosa representação da projeção coletiva humana! E eram vários, em várias religiões diferentes. E eu queria conhecer todos eles, saber quem eles eram, quais as suas histórias, o que fizeram pelo mundo! De repente, as coisas começaram a fazer sentido novamente!

Eu não acreditava mais em fé, apesar de ter desenvolvido tempos depois algo que pode ser considerado como tal: Eu tinha "fé" de que poderia responder todas as questões do mundo com base nas minha habilidades racionais e intelectuais. Eu diferenciava dos religiosos pois não acreditava cegamente em nada, mas ao mesmo tempo eu não era cético ao ponto de achar que tudo precisa de provas reais e factuais para existir. Eu não era nem ateu nem crente. Eu passei a acreditar desacreditando. Passei a questionar o inquestionável e me perguntar se o místico podia ser real.

Se Deus (ou Deuses) existem ou não, não cabia a mim decidir. Meu objetivo à partir de então era buscar entendimento sobre o mundo e sobre eles. Buscar os indícios de que o mundo sutil existe. Responder aquela pergunta que eu me fiz desde o momento que minha cadela morreu: O que acontece no momento da morte? Passamos pra outra vida? Deixamos de existir por completo?

Minha fé é a de que até o fim da minha vida terrena eu conseguirei responder essas perguntas. Elas me guiam como religião. Elas me permitem viajar entre o mundo científico e o mundo místico. E mais, me permitiram transcender essas coisas e entender que o mundo é Gestalt.

Muitas das pessoas religiosas que passaram pela minha vida não me entenderiam nesse momento. Minha família provavelmente me veria com decepção por não mais acreditar no Deus católico. Minhas crenças transcenderam o mundano e eu finalmente aprendi a lidar com todos os monstros e pesadelos e pensamentos que existiam na minha mente.

Discutir com eles era como discutir com meu antigo eu. Eu sabia todos os argumentos e todas as respostas, com a diferença que eles não as questionariam. Eu os amo e os entendo, e compreendo sua religiosidade.

No entanto, as vezes tenho dificuldade de entender como tanta gente pode continuar a se agarrar em crenças que são baseadas em um texto com tantas inconsistências, ou como eles não conseguem ver que a fé é uma maneira que a religião usa para se proteger do escrutínio. Eu me pergunto se todas as pessoas que conviveram comigo na minha caminhada também tiveram as mesmas dúvidas que eu tive, ou se simplesmente criaram mecanismos para manter as crenças como algo válido para suas vidas.

Então me pergunto: Em que ponto alguém deve se soltar de uma visão de mundo que foi construída ao longo da vida? Em que ponto alguém decidiria desistir da promessa da vida eterna em troca da incerteza da dúvida? O que é preciso pra que isso aconteça? Com tudo isso em mente, eu me lembro:

Para mim, foi necessário muito!