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26 de dez. de 2022

Divertidamentes

Faz muito tempo que venho postergando escrever esse post, sabe? Talvez por medo das pessoas, talvez por me achar louco de dar vazão a isso ou talvez por puro e simples instinto de autopreservação. No entanto, escrever é terapeutico e dessa vez houve concenso que expor essa engrenagem interna é benéfica.

Então aqui estou eu, ou melhor nós, escrevendo sobre as vozes da minha cabeça. Quem são, onde vivem, o que fazem quando não vêm à tona? Tudo isso você, eu do futuro, confere agora.

Bom, mais importante que falar de cada um é explicar como se dá esse processo para minha pessoa. Primeiramente, as vozes não existem como personalidades reais e individualizadas na minha mente. Não há cisão entre elas. No entanto, isso tb não quer dizer que são só meras facetas. Cada uma têm sua personalidade e suas habilidades, mas todas trabalham em conjunto e concenso, na maior parte das vezes. A antropomorfização delas simplifica muito as coisas pra mim também, torna mais fácil a azáfama.

Esse mecanismo sempre serviu como uma forma de lidar com os problemas da vida. Surgiu em momentos de crise forte, e sempre nesses momentos a nova voz aparecia, plenamente capaz de lidar com o novo problema, ou de blindar o restante do grupo de situações debilitantes.

Quando eu fecho os olhos e tento as imaginar, eu vejo sempre uma mata escura, com uma fogueira central, e que cada um dos selfs (é como chamamos cada um) se senta em um círculo em volta dessa fogueira, e é a partir dessa fogueira que elas se manifestam, ou vem à tona, como prefiro chamar.

Agora que os pontos principais foram setados, segue a descrição de cada um dos selfs. Alguns são mais concretos e definidos, enquanto outros são mais abstratos e nebulosos, mas todos tem vozes definidas e únicas e sempre sei quem está falando ou quem está à tona.

Self criança: sempre esteve comigo e acho que a primeira self a aparecer. É a que curte cachoeiras, tomar chuva, gosta de sentir o vento dirigindo moto e é a que mais conversa comigo. Surgiu da necessidade de ter alguém para conversar depois de perceber que os primos e colegas de escola não gostavam de estar perto, e sempre evitavam durante o recreio. A partir de um momento da infância até o meio da adolescência só queria ficar sozinho, socializando só com ela. Ela até hoje é uma conselheira, e está sempre ali do lado pra exercitar a moderação, através de conselhos. É a self que faz a mediação com todas as outras e que vê as coisas sempre do prisma de ser justa com as outras selfs e com as pessoas externas. Ela nunca vêm à superfície.

Self fúria: é uma das selfs mais intensas, é a que sempre canaliza os surtos explosivos e curiosamente é quem mais ajuda a mantê-los, sob controle, do lado de dentro. Ela fala um idioma próprio, meio gutural, que frequentemente vem à tona quando uma situação causa um xingamento. É extremamente retraída e desconfiada das pessoas e geralmente só vem à tona quando não há ninguém por perto. Está sempre do lado da self criança e as vezes vem o questionamento de se as duas não são só expressões de uma self que ainda não apareceu. Sempre impaciente, sempre diz que é a burrice alheia que lhe tira a paciência.

Self implacável: a unica self mantida sob estrito controle, pois é uma self sorrateira e vil, e está frequentemente tentando com pensamentos criminosos ou ilegais, que surgem de assalto na minha mente. A maior parte dos pesadelos vêm dela, que mostra os "e se vc fizesse tal coisa"? Era quem mais aparecia no ensino fundamental, que quando era agredido pelos colegas, vinha à tona e devolvia as agressões com um ímpeto assustador. Representa uma parte irresistível e extremamente intensa da sede de vingança que as vezes aflora em situações que envolvem principalmente algo que ela considera injustiça, seja pessoal ou com outras pessoas. Passou a ser contida após um episódio que o vô deu um lanche pra levar pra escola, e por nao gostar do que ganhou jogou fora o lanche. Minutos depois estávamos lá pegando o lanche do chão mesmo e comendo, pq foi dado com carinho e boa intenção.

Self criativa: surgiu de uma crise de compulsão por mentir pra coisas irrelevantes, e virou uma voz que sempre se justificou como necessária para se fazer sentir parte de algo, afinal todos fazem igual, e foi por muitos e muitos anos a principal fonte de defesa, através de mistério e subterfúgios. Têm uma excelente memória de eventos, principalmente quando são memórias forjadas. Com o tempo e muita conversa, ela hoje é responsável pelo lado criativo mas frequentemente precisa ser vigiada, devido à facilidade que ela mostra de crescer ou criar fatos, pq a sensação e necessidade de ter atenção é muito viciante (tanto que é insistência dela a existência esse post).

Self Eduardo: era uma das selfs principais até acontecer de uma tentativa frustrada de suicídio, em que o medo irreal e sem escapatória das reações das pessoas de descobrir que somos gay causou o evento. É a bibliotecária, é bem rancorosa e é quem sempre lembra quem fez o quê, onde e quando. Era a self principal de interação até o episódio, se tornando mais passiva e hoje em dia quase não vem à tona, exceto quando quer ser irônica com algo ou alguém.

Self músico: é uma self que é difícil de explicar, exceto que ama musica e arte, e curiosamente é quem sabe cantar, tanto que quando vêm à tona é visível a alteração na entonação de voz e projeção sonora qdo essa self está se exibindo. É extremamente volátil emocionalmente e vai e volta nas emoções com a velocidade de um raio. Surgiu da necessidade de lidar com a imposição de seguir regras e padrões de comportamento e frequentemente é vista como a antagonista no concenso ou a que dá contrapontos nas decisões. Têm uma capacidade de persuasão muito grande.

Self Dudu: essa foi a que surgiu semanas depois da tentativa do suicídio, e é quem mais representa o estado de espírito após o evento. Está o tempo todo tentando se provar e demonstra uma enorme capacidade de confiança. É quem têm as habilidades de liderança, apesar que frequentemente se esquece que existem outras pessoas em volta. É quem as pessoas frequentemente interagem nos dias de hoje, trocando esse papel com alguma frequência com a self criativa e vez ou outra com o músico, nas interações cotidianas.

Self comandante: uma self que surgiu de uma crise de personalidade uma vez, quando de uma reflexão de que somos nada mais do que uma enorme colônia de mais de 30 trilhões de células, trabalhando juntas para sobreviver, comendo, vivendo. Nessa seara, a voz surgiu como uma conclusão que o "eu" entidade era só mais um nesse papel. Era quem o concenso tinha determinado para guiar todo o conjunto. É uma selfie extremamente julgativa, metódica, calculista e que sempre pensa no bem da comunidade da entidade e tem enorme capacidade de planejamento. Por muito tempo durante a adolescência, se considerava o "sistema operacional" da mente, e é quem mais sofre e trás à tona efeitos de ansiedade, devido a sua característica controladora.

Self observador: nunca fala nada, somente observa o mundo, os selfs em suas interações com o mundo, e que sempre está atento ao modo como as sensações são experienciadas. Se comunica através de emoções e é o único capaz de isolar impulsos sensoriais ou realçá-los. É obcecado por padrões e repetições e é fascinado por entender mais sobre si próprio, os outros selfs e principalmente sobre como funciona a percepção de mundo, que é definitivamente uma característica subjetiva e não objetiva. Extremamente lógico, racionaliza até as emoções. É o único de todos que não é possível controlar, mas é o que mais interage com os outros selfs.

Self caçador: é uma self muito autocontida em si. Raramente interage com as outras selfs mas com certa frequência vêm à tona, quando a libido entra em cena. É muito antissocial e ao mesmo tempo bastante sensual. Gosta de estar sob o controle das situações e frequentemente assume uma posição de caçador em relação a seus alvos sexuais. Tem uma energia muito intensa, só que quando têm seu ímpeto saciado, simplesmente sái da superfície sem nenhum aviso. As vezes dá vasão ao que as outras selfs tb querem, mas sem nunca interagir com elas. Extremamente inteligente, eficiente e faceira, é também extremamente dominadora.

Bom, é isso. Esses somos nós. Eu frequentemente trato no singular ou no plural quando ha concenso ou não entre as vozes. Se há concenso, sempre nos identificamos no plural. Se não há concenso, é sempre alguém quem toma a iniciativa, portanto trazendo um pronome no singular.

É definitivamente um arranjo complexo e com um quê de histeria, mas é minha histeria, e por ser minha lido com ela da forma que achar melhor. O importante é que funciona para que este que vos escreve consiga viver em sociedade. Não é fácil, mas vamos vivendo, um momento por vez.