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20 de mai. de 2025

Cage d’échos

No começo, estávamos aqui. Entre as paredes da realidade, atrás das grades da percepção. Cada um de nós dentro de nossas celas particulares. As vezes um confinamento solitário, as vezes um grande complexo com várias pessoas em suas celas próprias, lado a lado. Trabalhamos, comemos, cagamos e pensamos pq estamos aqui e o que fizemos de errado para sermos forçados a este lugar.

No fim, aproveitamos esta prisão para tentar tornar esse sofrimento e tristeza suportáveis. As vezes uma cortina aqui e ali, as vezes um outro detento do nosso lado por uma parte da nossa estadia. Vivendo de prazer em prazer, de agonia em agonia, em um ciclo sem fim de variações. Escrevemos livros, inventamos histórias, criamos religiões para tentar retratar essa prisão como um lugar bonito, com um carcereiro que nos botou aqui porque quer o nosso bem, desde que sigamos as regras da prisão. E são tantas religiões quantas são os encarcerados, para todos os gostos e idades. Criamos entretenimento para esquecermos a corrente que está no nosso pescoço, para mostrar um impossível que nos faz achar que é possível aquilo. Mas a corrente têm comprimento fixo. Ela não chega até esse santuário.

Em troca de pequenas boas sensações, uns pisam nos outros, tentam fazer sua prisão melhor à expensa do espaço do outro. Nos alimentamos dos menos capazes, e somos assaltados pelos mais preparados, em uma eterna cena de "coma ou seja comido".

Com o tempo começamos a aproveitar a prisão como ela é, então começamos a criar casamentos, família, ter filhos. No fim, criamos tantos significados, teorias e problemas que esquecemos que estamos de fato em uma prisão e que o único propósito de um prisioneiro é ser libertado o mais rápido possível. No entanto, ninguém jamais saiu dessa prisão. Ou se saiu, nunca mais voltou para libertar os outros ou dar esperanças de libertação.

A verdade é que a morte é a única porta de saída dessa prisão. Uma hora chega. Seja por vontade própria, seja por falta de vontade, seja por infortúnio (ou sorte). Mas não há outra saída.

Cada pessoa é um encarcerado. Cada pessoa é um átomo. E todos somos átomos.

Desejo a todos, e especialmente àqueles que já se cansaram disso, uma verdadeira liberdade.

17 de nov. de 2016

Syzygyness

Tudo começa com você acordando. Você não nota nada de diferente no começo mas todas as pessoas estão lhe olhando diferente e você não sabe o porquê. Você vai até o espelho e percebe que você não é você, você é um construto mecânico. E não entendendo o que se passa, você tenta recapitular quando foi que tudo mudou. Será que era porque estava na cama por alguns dias com febre? Será que era por causa daquela visita estranha na noite anterior? E então você nota que todas as pessoas que você conhece estão alguns anos mais velhas, como se 10 anos tivessem passado em um piscar de olhos.

Este foi um sonho que tive há alguns dias, extremamente real e com muito mais detalhes que citei acima. Esse foi só o começo dele, e ele ainda foi muito longe, até um ponto onde finalmente pude entender um questionamento que venho fazendo nos últimos anos sobre o que é essa entidade observadora que existe no fundo de nós.

Essencialmente, o sonho me deu vários insights para os mecanismos que regem a consciência, e depois de muito divagar à respeito, a conclusão que chego é que o que acontece de diferente é o que descreverei abaixo.

Nossa consciência nada mais é do que um fluxo retroalimentado de análises das nossas próprias memórias. Nada mais. Não existe explicação mais complexa ou mística à respeito disso. É só você pensar sobre como seu cérebro sempre usa informações sensoriais e julgamentos tomados para definir o que é nossa personalidade. Na realidade, nós não existimos como entidades, nós existimos como construtos de personalidade baseada nas nossas experiências passadas.

É difícil assimilar isso, e só com uma divagação bastante profunda sobre nossa própria existência que foi possível que eu chegasse à essa conclusão. Essencialmente, somos máquinas biológicas que operam um conjunto de dados em constante mutação.

Isso só me faz lembrar o épico filme chamado Chappie, do cineasta Neill Blomkamp, que nos leva a questionar exatamente isso que chamamos de consciência, daquilo que aparentemente nos torna únicos.

Não se engane, no entanto. Nós continuamos únicos, afinal o maquinário de cada pessoa é ligeiramente diferente uns dos outros, e os conjuntos de memórias e experiências de vida também são diferentes, criando a miríade de identidades projetadas que estamos acostumados a interagir como eu, você, a moça do mercado e o cobrador de ônibus.

O engraçado é que chegar à essa conclusão me trás mais calma do que aflição, como alguns já disseram em um post anterior (Provenanceness) onde eu fiz um questionamento sobre "sua vida mudaria se você se descobrisse uma máquina". Vários de meus amigos falaram que iriam continuar seguindo suas vidas, sem contar as pessoas e evitando pensar nisso novamente. Eu, como disse nesse mesmo post, não conseguiria, eu precisaria explorar essa nova faceta, e de fato é o que venho fazendo desde que me entendo por ser vivo.

Agora, o mais importante na minha visão é como explorar melhor esse conhecimento e como ampliar a minha capacidade de trabalhar esse conceito de personalidade de forma a poder melhorar aspectos da minha vida que precisam ser melhorados.

Não que queira melhorar ou corrigir todos, mas sempre há espaço para melhoramentos, afinal é o que fazemos com uma máquina.

1 de fev. de 2016

Superpowerness

Vamos filosofar sobre o filme Poder sem Limites.

Não sei vocês, mas eu faço isso para todo filme que eu assisto, pois todo filme têm uma história para me contar (na verdade nem todo filme, alguns são meh o suficiente pra ser só mindless action).

O filme Poder sem Limites mexe comigo, pois ele relata exatamente uma das sensações que eu teria se de repente eu desenvolvesse um poder como psicocinese (o melhor poder).

Várias vezes eu me peguei imaginando como seria, como aquilo me afetaria, como a sociedade reagiria, e no final a única coisa que realmente me preocupa é em como minha personalidade se adaptaria em torno dessa nova habilidade.

Será que eu começaria a achar que sou um deus? Será que minhas noções de moral se alterariam? Eu sinceramente não sei. Eu só posso imaginar que eu ia me divertir muito com essa habilidade.

Alguns diriam que eu poderia salvar vidas com ela. Eu argumento que sim, se esse poder viesse com um propósito. De fato, a propensão a ajudar onde fosse preciso seria muito grande, mas não viveria só por essa ótica, afinal quem decidiria sobre isso seria eu, pois no final das contas o poder é meu, não é?

Eu sou uma pessoa que pensa muito mais em mim que nos outros, mas não deixo de pensar nos outros também, mas o fato é que eu vou pensar em mim primeiro e, a não ser que envolva uma decisão moral, eu vou sempre tomar uma decisão em meu favor próprio.

Assim, o fato de ter ou não superpoder é na verdade o fato de o quão eu me doaria para o mundo. Eu tenho minhas medidas de doação, e só vou além dessas medidas quando a pessoa conquista esse mérito comigo. O resto, é só uma carinha bonitinha lintamente esculpida através de anos de experiências de dissimulação.

Ainda sim, seria muito bom poder voar com um poder como esse. Eu ficaria a vida inteira voando e levantando as coisas.