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14 de nov. de 2021

Fine temporum litterae

Eu demorei muito tempo pra fazer isso. A me desprender. A deixar essa memória no passado. Esse é o primeiro ato de "deixar para lá" uma coisa que por muito tempo definiu minha forma de pensar e de como abordar determinadas ações na minha vida.

Então decidi tirar você da minha carteira, e colocar aqui, nesse repositório de memórias, de "eus" passados. Para que eu possa ler novamente no futuro, mas com uma visão diferente da que me fez carregar por tantos anos essa carta dentro da minha carteira.

Não é algo que eu considero fácil de fazer, mas existem ações que precisam ser feitas se queremos um fechamento para determinadas histórias.

Como diz um ditado que ouvi, nunca se atravessa um rio duas vezes, pois a água da travessia seguiu seu caminho, assim como a pessoa que atravessou o rio.

...

Finis rerum

Não sei como começar isso a não ser pelo começo. Se você está lendo isso, eu só queria dizer que eu estou em paz comigo mesmo. Esse tempo todo que passou em que me escondi das pessoas, menti para pessoas próximas, afastei quem eu na verdade queria perto, tudo teve um motivo. É o mesmo motivo pelo qual estou escrevendo essa carta. É a única saída que eu tenho a seguir, e que me deixa em paz comigo mesmo. É o término da existência, dos problemas, das preocupações, das angústias, das decepções e frustrações. Eu decidi por um fim nesse ciclo, pois independente de se agora ou daqui muitos anos, o local é o mesmo. É o fim. Por isso, não quero que esse seja um momento de tristeza, mas sim um momento de paz. É o momento de paz final, antes do desaparecimento atrás da cortina da morte. E eu escolhi me sentir em paz.

29 de fev. de 2016

Heartless

Aquele momento que você não sabe o que escrever porque tem sentimentos conflitantes sobre o assunto, mas vamos lá, pois é preciso externalizar isso de alguns forma.

Primeiramente, eu queria entender porque sinto esse conflito em relação a meu pai. O fantasma sempre aparece quando vejo fotos do meu pai se divertindo com o neto, áudios no grupo da família, etc...

Sempre reclamei da sua ausência secretamente e de certa forma sempre tive essa sensação, que só consigo descrever no momento com a palavra em inglês "upset". Mas ultimamente eu tenho visto ele cuidando do neto como eu esperaria que ele tivesse cuidado de mim, e isso têm uma capacidade incrível de me desarmar por completo!

Eu sou ciente de minhas emoções o suficiente para entender as raizes desse sentimento conflitante, mas nada disso me tira o peso dessa sensação de que eu queria que tivesse sido comigo. Eu tive meu avô e minha avó e pelos anos em que vivemos juntos, eu me senti conectado a algo. Mas depois que meu avô se foi, eu me senti compelido a enterrar esse sentimento, que passei a considerar supérfluo, pois agora eu tinha que cuidar da minha avó, e esse sentimento perdura até hoje.

Admito que ver meu pai consertando com o neto o que não é mais possível reparar entre a gente me deixa feliz por ele. Ele está se redimindo consigo mesmo e isso é notório na felicidade que ele vem transparecendo ultimamente. Infelizmente não acredito que seja possível, para mim, me reconectar a esse sentimento, pois exige de mim abrir mão da proteção que criei pra suportar a ausência.

Não estou pronto para deixar cair a ultima defesa, o nemesis da minha existência, pois é esse nêmesis que me protegeu no começo e que hoje me faz forte, que me faz racional, e principalmente, quem mantém minhas emoções sob controle.

A resposta pra isso é simples ao extremo: É puro e simples ciúme, por alguém ter o que eu não tive, por ter o que desejei ter por anos a fio e que, no fim, foi enterrado por questões de sobrevivência.

Não espero que isso mude com o tempo, pois eu não quero mais que mude. O tempo que passou, passou e não volta mais. Só me resta recuperar ocasionalmente pedaços de sentimentos perdidos no passado e trazer à tona, pra entender quem eu sou, quem eu me tornei e quem eu irei ser no futuro.