27 de abr. de 2012

Velhice

Essa noite tive um sonho interessante. Eu sonhava que estava velho e que uma moça bem simpática estava me dando sopa na boca, pois eu não tinha dentes e mal tinha forças pra conseguir segurar o garfo nas mãos. Ela me dizia que gostava de ouvir as histórias que eu tinha pra contar, reais ou imaginárias. Eu não me sentia sozinho, apesar de no sonho eu não ter nenhum familiar próximo há mais de uns 20 anos. Pelas minhas mãos, rosto e pela declaração anterior, eu devia ter algo em torno dos 90 anos.

Eu me sentia bem no sonho. Realizado, como se feliz por relembrar tudo aquilo que eu tinha passado todos os anos anteriores. Eu contava histórias para essa moça que cuidava de mim. Eu acho que eu estava em algum asilo ou algo do tipo. Era estranho, mas eu naquele momento específico não sentia o peso da idade nos meus processos cognitivos. Eu senti esse sonho mais como uma conexão com algum ponto futuro, como se de repente minha mente voasse anos à frente e se encontrasse, por um curto espaço de tempo, naquele corpo idoso.

É engraçado que nem sempre eu pensei muito na minha velhice. No máximo eu me imaginava com uns 60 anos contando historinhas pra crianças sobre coisas que não aconteceram comigo, uma forma de me sentir importante e dar uma imagem heróica. Nunca tinha parado pra sentir a sensação de velhice no corpo, como esse sonho proporcionou. Mas é engraçado, eu estava diferente. Meu pensamento era outro. E eu sabia qual era o motivo.

Eu estava morrendo no sonho. Aqueles eram meus últimos momentos de lucidez, aquele momento onde você têm um último contato com o mundo real da maneira como você o enxergava, antes daquele mergulho em direção ao desconhecido.

Eu só me lembro que nesse momento, eu disse à moça que cuidava de mim "Obrigado por tudo" antes de acordar do sonho enquanto eu desfalecia. Eu sabia que aquela frase não era só para ela, era para o mundo. Eu sei disso pois essa é uma das coisas que eu mais acredito.

Eu me lembro de quando minha tia-avó faleceu. Não me recordo de quem falou com ela, mas suas últimas palavras foram "Eu não quero morrer". Aquele momento, aquela fala, me acordaram bem cedo para o fato de que não somos eternos, que não duramos para sempre. E foi a primeira vez também que eu parei para me enxergar e pensar "Como vai ser na minha vez"?

Viver aqui é uma experiência incrível, e não importa o momento da partida, eu sempre vou estar feliz por ter tido tantas experiências. Quando eu digo a frase "Qualquer coisa depois dos 40 anos é lucro pra mim" não estou querendo dizer que eu não quero viver além dessa idade. É uma forma irônica de dizer que minha maior felicidade é fazer tudo isso que eu faço e que, independente do momento que ocorra essa transição, eu sempre estarei feliz e dignificado por ter tido esse tempo junto com todos vocês.

E então, eu saio pela esquerda e vou pra coxia, esperar todos voltarem (como no final de Titanic) ou não. Se o outro lado existe ou não, eu não me importo, pois se você viver essa vida de forma a sempre se orgulhar dela, o vazio pode ser uma coisa suportável. Ou se sentir bem na outra vida por saber que você viveu de verdade por aqui! Daí, cada um tira a sua interpretação.